São Miguel em 6 dias: o nosso roteiro pelos Açores
Vacas no meio da estrada, lagoas vulcânicas, águas termais e uma cascata inesquecível: este foi o nosso roteiro real de seis dias por São Miguel.

Há viagens em que o carro serve apenas para ir do aeroporto até ao hotel.
Nos Açores percebemos bastante depressa que esta não ia ser uma delas.
Chegámos a Ponta Delgada às 18h15 do dia 3 de maio de 2022, vindos do Porto, e ainda estávamos no balcão da Goldcar, com as malas na mão, quando ouvimos uma daquelas frases que normalmente não auguram nada de bom para o orçamento:
“Tenho aqui uma coisa melhor para vocês.”
Tínhamos reservado online um carro pequeno por cerca de 200 €.
A proposta era fazer um upgrade por mais 20 € por dia. À primeira vista parecia apenas a clássica tentativa de nos fazer gastar mais dinheiro.
Depois explicaram-nos o resto.
O novo valor incluía seguro contra todos os riscos e fazia a caução descer de cerca de 1.500 € para 500 €, devolvidos quando entregássemos o carro.
Aceitámos.
E, depois de seis dias a percorrer São Miguel, não nos arrependemos.
Porque esta não foi propriamente uma viagem a Ponta Delgada.
Foi uma viagem à ilha inteira.
Dia 1 — Chegada aos Açores e um aparthotel junto à praia
Depois de resolvermos o carro, seguimos para o Aparthotel Barracuda, em São Roque, mesmo em frente à Praia das Milícias.
Tínhamos cinco noites reservadas, num quarto para duas pessoas, com pequeno-almoço incluído.
Mas havia uma característica do alojamento que acabou por ter bastante importância no orçamento da viagem:
Tínhamos cozinha.
Por isso, depois de deixarmos as malas, uma das primeiras paragens foi precisamente no supermercado.
Nada de particularmente romântico.
Mas extremamente útil.
Durante os dias seguintes acabámos por fazer cerca de 90% das refeições no aparthotel, o que nos permitiu gastar bastante menos em restaurantes sem sentirmos propriamente que estávamos a fazer uma viagem “low-cost à força”.
Depois de jantar ainda fomos passear pela praia junto ao hotel.
Não tínhamos nenhuma grande atração planeada.
Nenhum bilhete.
Nenhum horário para cumprir.
Só tínhamos acabado de chegar aos Açores.
E soube perfeitamente assim.
Dia 2 — Sete Cidades e a costa oeste de São Miguel
O segundo dia foi aquele em que começámos realmente a perceber porque é que alugar um carro em São Miguel faz tanta diferença.
Fizemos grande parte da zona oeste da ilha, começando pela Lagoa das Empadadas e seguindo depois para o Miradouro da Lagoa do Canário.
Passámos também pelas ruínas do Monte Palace Hotel, antes de chegarmos a um dos lugares mais conhecidos de São Miguel:
O Miradouro da Vista do Rei.
É dali que se observam as lagoas das Sete Cidades dentro da enorme cratera vulcânica.
Uma azul.
Outra verde.
E é uma daquelas paisagens que, mesmo depois de já termos visto dezenas de fotografias, funciona de maneira completamente diferente quando estamos realmente ali.
Seguimos para o Miradouro da Boca do Inferno, o Lago de Santiago e o Canal das Sete Cidades.
E o dia ainda estava longe de acabar.
Continuámos até ao Miradouro da Lomba do Vasco, descemos até à Praia dos Mosteiros, passámos pelas Piscinas Naturais dos Caneiros e acabámos na Ponta da Ferraria.
Aqui acontece uma das coisas mais curiosas da ilha: uma nascente termal encontra-se com o mar numa zona de rocha vulcânica.
Dependendo das condições e da maré, a temperatura da água pode transformar completamente a experiência.
Foi um dos dias em que vimos mais coisas.
E praticamente tudo aquilo que fizemos foi gratuito.
Dia 3 — Trilhos, Furnas e água quente por todo o lado
No terceiro dia começámos com uma parte da Pequena Rota PR39 SMI, passando pelas Quatro Fábricas da Luz e pela Cascata do Segredo.
Nós não somos propriamente aquelas pessoas que chegam aos Açores com o objetivo de fazer todos os trilhos marcados no mapa.
Gostamos de caminhar.
Mas há limites.
E São Miguel tem trilhos suficientes para testar seriamente esses limites.
Passámos também pela Ermida de Nossa Senhora da Paz antes de seguirmos para uma das zonas mais características da ilha:
As Furnas.
Aqui, a natureza faz questão de nos lembrar constantemente que estamos numa ilha vulcânica.
As fumarolas anunciam-se pelo cheiro a enxofre antes de sequer chegarmos perto.
É também nesta zona que é preparado o famoso cozido das Furnas, utilizando o próprio calor do solo.
Mas naquele dia tínhamos outro tipo de calor em mente.
Fomos à Poça da Dona Beija, com as suas piscinas termais ao ar livre, e depois seguimos para o Parque Terra Nostra.
O Terra Nostra é provavelmente um dos locais mais conhecidos das Furnas, muito por causa da enorme piscina de água termal no centro do jardim.
O bilhete permitia ficar muito mais tempo.
Nós ficámos cerca de duas horas.
Entre água quente e jardins, chegou-nos perfeitamente.
Terminámos o dia ainda pela zona das Furnas, passando pela cascata, pelo aquário e pelas Caldeiras das Furnas.
Foi também um dos poucos dias em que gastámos dinheiro em atrações.
Na altura, a Poça da Dona Beija custou-nos cerca de 9 € por pessoa e o Parque Terra Nostra 15 € por pessoa.
E, dos dois?
Foram bilhetes que não nos arrependemos de comprar.
Dia 4 — Lagoa do Fogo e a cascata que não esquecemos
Se tivéssemos de escolher um dos dias que mais nos ficou na memória desta viagem, provavelmente seria este.
Começámos pelo Miradouro da Lagoa do Fogo e pelo Miradouro do Pico da Barrosa.
A Lagoa do Fogo é uma daquelas paisagens que quase parece demasiado arrumada para ser real, mas atenção, fizemos várias tentativas para vê-la, está quase sempre nevoeiro cerrado nesta zona.
Água rodeada de montanha e vegetação, sem uma cidade ou uma fila de edifícios a estragar o cenário.
Depois seguimos para a Caldeira Velha, onde voltámos às águas termais, desta vez no meio de uma zona de floresta.
Mas o lugar que acabou por roubar o dia foi outro.
A Cascata do Salto do Cabrito
Há locais que ficam na memória pela fotografia.
Este ficou também pela subida.
A descida até à Cascata do Salto do Cabrito é bastante inclinada.
O que significa, naturalmente, que depois temos de voltar a subir tudo aquilo que descemos.
Quando chegámos lá abaixo, porém, percebemos porque é que valia a pena.
A cascata cai entre enormes paredes cobertas de vegetação e a sensação de isolamento transforma completamente o lugar.
Foi, sem grande hesitação, uma das coisas mais impressionantes que vimos em São Miguel.
As pernas na subida de regresso tiveram uma opinião ligeiramente diferente.
Continuámos depois pelas Piscinas Naturais das Calhetas da Maia, pela Fábrica de Chá Gorreana e por Ribeira Grande.
E foi também por estes dias que começámos a habituar-nos a outra realidade açoriana:
vacas no meio da estrada.
Não uma.
Nem duas.
Manadas.
E quando uma manada decide atravessar a estrada, não há muito a negociar.
Paramos.
Esperamos.
E seguimos viagem quando elas entenderem.
Nos Açores, percebemos rapidamente quem tem prioridade.
Dia 5 — Ananases, Nordeste e o Farol do Arnel
No penúltimo dia começámos pelo Jardim Botânico António Borges.
Visitámos também uma das plantações de ananás dos Açores, onde pudemos ver de perto a forma como o fruto é cultivado em estufas.
É daquelas visitas que provavelmente não colocaríamos no topo de uma lista das grandes atrações de São Miguel, mas que acaba por mostrar uma parte completamente diferente da ilha.
Depois seguimos em direção ao Nordeste.
Passámos pelo miradouro conhecido informalmente como Cu de Judas, pelo Miradouro da Ponta da Madrugada e pelo Farol do Arnel.
Terminámos essa zona da ilha no Parque Natural da Ribeira dos Caldeirões, entre vegetação, água e mais uma cascata para juntar à coleção da viagem.
Ainda passámos por Caloura, em Água de Pau, antes de regressarmos.
Foi também nesta parte da ilha que atravessámos Rabo de Peixe.
Na altura, em 2022, era simplesmente mais uma das localidades por onde passámos durante a viagem.
Um ano depois, com a estreia da série portuguesa com o mesmo nome, tornou-se um daqueles sítios que de repente toda a gente parecia conhecer.
Nós tínhamos passado por lá antes de ser mainstream.
Conta?
Provavelmente não.
Mas fica bem dizer.
Dia 6 — Últimas compras e regresso ao Porto
No último dia já não havia uma volta enorme à ilha planeada.
Fizemos as últimas compras, demos os últimos passeios e tratámos de entregar o carro na Goldcar.
Depois seguimos para o aeroporto.
O voo de regresso ao Porto estava marcado para as 13h10.
E assim terminaram seis dias em São Miguel.
Ou, mais corretamente, cinco noites e vários dias em que tentámos encaixar o máximo possível sem transformar as férias numa prova de resistência.
Afinal, seis dias chegam para conhecer São Miguel?
Para conhecer São Miguel inteira?
Não.
Mas chegam para fazer uma primeira viagem muito completa.
Nós não somos grandes fãs de trilhos longos e, mesmo assim, havia facilmente dezenas de percursos que ficaram por fazer.
Se gostas especialmente de caminhadas, a ilha consegue ocupar-te durante muito mais tempo.
Para uma primeira visita, diria que três dias permitem conhecer alguns dos pontos essenciais, mas obrigam a fazer escolhas e a manter um ritmo bastante mais acelerado.
Com cinco ou seis dias, já existe espaço para dividir melhor a ilha por zonas, parar nos miradouros sem estar constantemente a olhar para o relógio e aceitar que uma vaca pode decidir alterar o horário do dia.
E isso, nos Açores, parece-nos importante.
Se voltássemos, provavelmente escolheríamos novamente uma duração semelhante.
Talvez com ainda menos pressa.
É preciso alugar carro em São Miguel?
Para fazer o nosso roteiro?
Sim.
Não consigo imaginar esta viagem da mesma forma sem carro.
Grande parte dos locais que visitámos estão espalhados pela ilha e o carro permitiu-nos montar os dias à nossa maneira, parar em miradouros que apareciam pelo caminho e alterar o plano sempre que encontrávamos alguma coisa interessante.
O aluguer durante cinco dias, já com o upgrade e seguro contra todos os riscos, ficou-nos por aproximadamente 320 €.
Não foi barato.
Mas foi provavelmente uma das despesas mais importantes de toda a viagem.
O carro deu-nos liberdade para conhecer São Miguel como queríamos.
E, olhando para trás, não seria aí que tentaríamos poupar.
Quanto gastámos em seis dias em São Miguel?
Esta viagem foi realizada em maio de 2022, por isso estes valores devem ser vistos como o registo daquilo que nós pagámos — não como preços atuais.
Nos voos Ryanair entre Porto e Ponta Delgada, ida e volta para duas pessoas, pagámos 166,96 €.
Esse valor já incluía bagagem extra e embarque prioritário.
Pelas cinco noites no Aparthotel Barracuda, para duas pessoas e com pequeno-almoço incluído, pagámos 372 €.
O seguro de viagem IATI Escapadinhas para os seis dias custou 9,88 € para os dois.
O aluguer do carro durante cinco dias, incluindo o upgrade e seguro contra todos os riscos, ficou por aproximadamente 320 €.
No Parque Terra Nostra, os dois bilhetes ficaram por 30 €.
Na Poça da Dona Beija, pagámos aproximadamente 18 € pelos dois.
Somando estes valores:
aproximadamente 916,84 € para duas pessoas
Ou cerca de:
458 € por pessoa
Este valor não inclui a alimentação.
E há uma razão simples.
Não guardámos os talões das compras de supermercado.
Como tínhamos cozinha no aparthotel, cerca de 90% das nossas refeições foram feitas lá. As compras foram semelhantes ao que gastaríamos numa semana normal para duas pessoas.
Só comemos fora uma ou duas vezes e, quando o fizemos, pagámos aproximadamente 10 € a 15 € por pessoa por refeição.
Por isso, preferimos não inventar um total para alimentação que já não conseguimos confirmar.
O que sabemos é que ter escolhido um aparthotel com cozinha reduziu bastante uma das despesas que normalmente mais pesa numa viagem.
O nosso roteiro de São Miguel resumido
Se quiseres usar a nossa viagem como ponto de partida para construir a tua, ficou mais ou menos assim:
Dia 1: chegada a Ponta Delgada, aluguer do carro, check-in no Aparthotel Barracuda e Praia das Milícias.
Dia 2: Lagoa das Empadadas, Lagoa do Canário, Monte Palace, Vista do Rei, Boca do Inferno, Lago de Santiago, Sete Cidades, Lomba do Vasco, Mosteiros, Piscinas Naturais dos Caneiros e Ponta da Ferraria.
Dia 3: PR39 SMI, Quatro Fábricas da Luz, Cascata do Segredo, Ermida de Nossa Senhora da Paz, Furnas, Poça da Dona Beija, Parque Terra Nostra e Caldeiras das Furnas.
Dia 4: Lagoa do Fogo, Pico da Barrosa, Caldeira Velha, Cascata do Salto do Cabrito, Calhetas da Maia, Fábrica de Chá Gorreana e Ribeira Grande.
Dia 5: Jardim António Borges, plantação de ananás, Nordeste, Cu de Judas, Ponta da Madrugada, Farol do Arnel, Ribeira dos Caldeirões e Caloura.
Dia 6: últimas compras, entrega do carro e regresso ao Porto.
Eu não copiaria necessariamente este roteiro ponto por ponto.
Copiaria sobretudo a forma como o dividimos.
Um carro, uma zona diferente da ilha por dia e espaço suficiente para parar quando aparece alguma coisa que não estava no plano.
Porque uma das melhores coisas em São Miguel é precisamente essa.
Podemos sair de manhã com dez lugares guardados no mapa.
E acabar por recordar melhor o miradouro onde parámos por acaso, a cascata que exigiu muito mais das nossas pernas do que esperávamos ou os dez minutos parados no meio da estrada porque uma vaca decidiu que naquele momento ninguém passava.
E, sinceramente?
Também é isso que ficou da viagem.
Viagem realizada em maio de 2022. Os preços, horários, condições de acesso e funcionamento dos locais mencionados podem ter mudado desde a nossa visita.
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